Possível Anarquismo – 1 (S. Quimas)

Estudos, debates, dúvidas envolvendo temas ligados ao anarquismo em geral.

Possível Anarquismo – 1 (S. Quimas)

Mensagempor quimas » 03 Out 2008, 12:39

Desde cedo aprendemos que para se realizar qualquer coisa é necessária a ação. Contudo para que a ação alcance o objetivo planejado, teremos que ter ordem, organização. A isto chamo “trabalho”, à ação organizada com a finalidade de se alcançar um determinado objetivo.

Não há Anarquismo possível sem organização. Ainda que não se estabeleçam hierarquias, ainda que não se elejam governos. No Anarquismo as necessidades determinam a criação de núcleos que serão responsáveis pela administração dos meios e cada indivíduo em seu próprio núcleo é responsável pelo desempenho individual na sua função, cujo objetivo fundamental é o bem-comum.

Em um mundo de bilhões de indivíduos, o que motivará tais indivíduos a que operem pelo bem-comum? Eis aí a complexa questão, que se for resolvida tornará possível o surgimento de uma civilização livre, justa, pacífica e ordeira.

Percebemos no dia-a-dia que a grande maioria das pessoas não está consciente da sua individualidade, mas têm uma existência estereotipada, causada pela aculturação promovida pelo Estado e por todas as instituições que lhe alimentam a existência: órgãos governamentais, instituições educacionais, instituições religiosas, etc. Raramente alguém é educado ou se questiona se há a possibilidade de as coisas poderem ser de outro modo, se há outras vias para a existência.

A propriedade

A condição natural do homem não se distancia demais da dos outros mamíferos e da maioria das classes animais. Aprendeu a viver em bando e a extrair seu provimento dos recursos que a Natureza lhe oferecia. Contudo, a sua inteligência ainda não foi capaz de fazê-lo superar o modelo territorial de outras espécies, agravado ainda mais porque o Ser Humano, principalmente o dito civilizado, ocupa mais território do que suas necessidades básicas determinam.

Deveríamos regredir ao modo primitivo de existência? Não acredito que seja uma solução plausível, porém deveríamos disciplinar nosso modo de ocupação da Natureza e o uso de seus recursos.

Boa parte dos problemas humanos reside num fator: a propriedade.

A propriedade surge como uma aberração, um desvirtuamento dos propósitos da existência, que não é acumular para si bens exclusivos, mas usufruí-los em comum.

Em um dado momento, movido por uma das formas mais perversas de egoísmo, um indivíduo qualquer determinou arbitrariamente que algo lhe “pertencia” com exclusividade. Principiou-se então a verdadeira Queda do Homem.

Tudo o que não seja a individualidade é bem comum, ou ao menos deveria sê-lo. Quando circunscrevemos um território e dele fazemos uma posse, na realidade usurpamos o direito natural de usufruto comum e sonegamos a possibilidade de partilha da riqueza. Isto não somente é aviltante, mas gera o empobrecimento de todo o restante de indivíduos na sociedade.

Não minimizaremos o problema da miséria no mundo concedendo a posse àqueles que não tenham nenhuma, mas eliminando a propriedade exclusiva dos bens e dando acesso ao uso comum por todos os indivíduos.

E para onde irá assim a privacidade? Ora, se, por exemplo, a casa onde resido é usufruto universal, qualquer indivíduo poderá adentrá-la ao seu bel prazer e nela firmar residência.

A resposta a esta questão está na palavra “ordem”. A ordem fundamenta a organização e distribuição igualitária dos meios em função das necessidades individuais e coletivas dos membros de um grupo. Enquanto permanecer esta necessidade, prevalecerão as condições adequadas de usabilidade dos meios e tais direitos estarão garantidos pela consciência do bem-comum e do respeito pelo outro indivíduo.

Como se habituou a outros venenos, também o homem se habituou ao veneno da propriedade exclusivista e encarcerado neste vício prossegue no seu egoísmo, dificultando os seus e os caminhos dos demais seres.

Bibliotecas empoeiradas, recursos em deterioração, desperdícios, miséria, tudo isto faz parte da propriedade privada e sua ideologia execrável.

Por que ao invés de casas de praia e campo nababescas não se constroem hotéis de livre acesso a todos? Por que ao invés de iates luxuosos, os estaleiros não se dedicam à construção de navios para que todos possam usufruir de viagens de laser? Simplesmente porque o egoísmo não faculta o acesso, porque a propriedade determina quem, quando e como terá acesso ao usufruto de um bem e não o bem-estar de todos, a justa partilha dos bens à sociedade.

Deveríamos ser todos ricos, porém o direito à propriedade privada dos bens cerceou a possibilidade e facultou a que somente uns poucos indivíduos tivessem acesso à riqueza. Ninguém é menos rico por partilhar de algo que é comum a todos, ao contrário, se a riqueza é usufruto de todos, então serão todos ricos, mas se somente alguns o são, só o são porque outros estarão empobrecidos ou em estado de miséria. Esta a matemática da vida: se todos dividem todos enriquecem, se somente alguns têm a propriedade se subtrai dos outros a riqueza.

Se desejamos a educação temos que ter meios, se queremos extinguir a fome temos que alimentar. Mas como faremos se os meios estão nas mãos de uns poucos — governos, proprietários, instituições privadas, etc. —, que determinam onde aplicar os recursos e só visam o lucro próprio e o poder, acumulando mais e mais riquezas.

Os governos necessariamente não constroem estradas visando que você ou eu trafeguemos de uma a outra parte porque necessitemos disto primariamente, mas porque deve atender às instituições e a seu lucro e fome de poder. Não há governo bom, pois os governos surgiram para impor modos de vidas condicionados às necessidades da elite social, verdadeiros “donos” do mundo e senhores de seus recursos.

Se quisermos transformar nossas vidas e nossa sociedade, temos que estar atentos para não replicarmos em nossas existências este modelo perverso ao qual nos acostumaram. Devemos, sim, estimular e apoiar a tudo que o evite, desde que dentro do parâmetro do respeito ao indivíduo e visando o bem-comum.

Novembro de 2006.

S. Quimas

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